Verdade?
Disse um velho profeta: “O mundo, a cada dia mais habitado, tornou-se inabitável”. Do nascimento ao declínio precoce do pensamento ocidental, seria válida a explicação de que ficamos cegos por vermos em excesso? Ficamos surdos por ouvirmos demais? Oh, de forma alguma quero mudar essa atmosfera plúmbea repleta de sentidos, isso seria inútil. Multiplicar as direções me parece algo mais interessante. O que sem dúvida é um fato, é que somos vítimas de um processo cultural que se agrava a cada momento. Com o mínimo de contato com a sociedade (perdoem-me por esta palavra grosseira) recebemos passivamente tudo que o homem acumulou, todos os preconceitos, todas as verdades invioláveis. Bem, isso é algo conhecido de todos, explicitamente ou não (Quero dizer que até isso se tornou “hereditário”). Uma luz intensa certamente impede que olhemos para cima, e não olhamos por conseguirmos sobreviver com essa despercebida humilhação. As verdades tornaram-se causas, que se mascaram como motivos, ações! Partindo dessa involução, pergunto-lhes: devemos mesmo considerar tais verdades como causas?
É evidente, considerando a questão do tempo, que esse sistema obteve um admirável sucesso. Nesse intervalo, a busca individual pela sobrevivência se manifestou da maneira mais paradoxal possível, e naturalmente as causas foram estabelecidas como uma forma de necessidade. O que seria essa necessidade? Não seriam mais humilhações? Essa ponte, na busca de um “bem comum”, degrada-se aos poucos com grãos de areia que não admitem se sobrepor, e essa humilhação não passa despercebida. Chegamos à esfera do indivíduo e ao limite que define a vaidade da existência. Nessa síntese de um processo pensante em decadência, mas tão vivo quanto um deus pagão, pensemos em nossa situação atual, como mais uma “célula em busca da cooperação mútua”. Antes disso, andemos um pouco. Não pelos séculos afora, repletos da abstração que os tempos imemoráveis nos impõem. Peço que caminhemos pelas ruas, andemos calmamente. Faixas, placas, indicações, tudo está a nosso favor, não se preocupem. De olhos fechados, o único risco seria tropeçarmos sobre os próprios pés. Agora imaginemos algo novo para nós, pensemos no fluxo habitual das ruas, mas sem qualquer tipo sinalização. Não há muito que se dizer, certamente o movimento estaria descompassado. O ângulo de visão se tornaria pequeno para a sobrevivência. Com passos tão cuidadosos, não estaríamos aprendendo a andar novamente? A respiração muda, a percepção aumenta exponencialmente, sair de casa parece uma má idéia. Mas espere, há outras pessoas querendo caminhar também! Veja só, nunca veremos mãos tão unidas como nesse momento! Há calma, o alívio imediato se expande e se perpetua. Há uma causa para eu ter feito tudo isso. Não, espere, posso até dizer que tenho um motivo para o que eu vier a fazer. Temos atos, e tudo isso não é passível de ferir a minha essência, já que eu não posso mudar os pontos fixos que estão ao meu redor. Eu nasci com eles agregados em meu sangue, junto com o pecado primordial e a baba de Caim. Mas essa minha verdade inicial não seria apenas um efeito? Uma reação à primeira ação impetuosa do homem sobre o homem? Respostas que venceram por ser respostas. As perguntas ecoam, gritam, mas não conseguem ser expulsas. Olhar para cima causa medo, mas isso não passa de mais uma verdade, uma resposta. O escuro, como todo ponto de partida, é visto como um risco à sobrevivência. Mas imagino, com certa ingenuidade, como deve ser prazeroso descobrir uma cor e perceber de perto todas as suas nuanças.
O assunto persistirá, até que nos tornemos prismas dessa verdade obsoleta.
Vogelfrei
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